LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
Curta Histria, de Machado de Assis


Edio de Referncia: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, 
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. 

A leitora ainda h de lembrar-se do Rossi, o ator Rossi, que aqui nos deu 
tantas obras-primas do teatro ingls, francs e italiano. Era um 
homenzarro, que uma noite era terrvel como Otelo, outra noite meigo 
como Romeu. No havia duas opinies, quaisquer que fossem as 
restries, assim pensava a leitora, assim pensava uma D. Ceclia, que 
est hoje casada e com filhos. 
Naquele tempo esta Ceclia tinha dezoito anos e um namorado. A 
desproporo era grande; mas explica-se pelo ardor com que ela amava 
aquele nico namorado, Juvncio de Tal. Note-se que ele no era bonito, 
nem afvel, era seco, andava com as pernas muito juntas, e com a cara 
no cho, procurando alguma cousa. A linguagem dele era tal qual a 
pessoa, tambm seca, e tambm andando com os olhos no cho, uma 
linguagem que, para ser de cozinheiro, s lhe faltava sal. No tinha 
idias, no apanhava mesmo as dos outros; abria a boca, dizia isto ou 
aquilo, tornava a fech-la, para abrir e repetir a operao. 
Muitas amigas de Ceclia admiravam-se da paixo que este Juvncio lhe 
inspirava;1 todas contavam que era um passatempo, e que o arcanjo que 
devia vir busc-la para lev-la ao paraso, estava ainda pregando as 
asas; acabando de as pregar, descia, tomava-a nos braos e sumia-se 
pelo cu acima. 
Apareceu Rossi, revolucionou toda a cidade. O pai de Ceclia prometeu  
famlia que a levaria a ver o grande trgico. Ceclia lia sempre os 
anncios; e o resumo das peas que alguns jornais davam. Julieta e 
Romeu encantou-a, j pela notcia vaga que tinha da pea, j pelo 
resumo que leu em uma folha, e que a deixou curiosa e ansiosa. Pediu 
ao pai que comprasse bilhete, ele 
comprou-o e foram. 


Juvncio, que j tinha ido a uma representao, e que a achou 
insuportvel (era Hamlet) iria a esta outra por causa de estar ao p de 
Ceclia, a quem ele amava deveras; mas por desgraa apanhou uma 
constipao, e ficou em casa para tomar um suadouro, disse ele. E aqui 
se v a singeleza deste homem, que podia dizer enfaticamente  um 
sudorfico;  mas disse como a me lhe ensinou, como ele ouvia  
gente de casa. No sendo cousa de cuidado, no entristeceu muito a 
moa; mas sempre lhe ficou algum pesar de o no ver ao p de si. Era 
melhor ouvir Romeu e olhar para ele... 
Ceclia era romanesca, e consolou-se depressa. Olhava para o pano, 
ansiosa de o ver erguer-se. Uma prima, que ia com ela, chamava-lhe a 
ateno para as toilettes elegantes, ou para as pessoas que iam 
entrando; mas Ceclia dava a tudo isso um olhar distrado. Toda ela 
estava impaciente de ver subir o pano. 

 Quando sobe o pano? perguntava ela ao pai. 
 Descansa, que no tarda. 
Subiu afinal o pano, e comeou a pea. Ceclia no sabia ingls nem 
italiano. Lera uma traduo da pea cinco vezes, e, apesar disso, levou-a 
para o teatro. Assistiu s primeiras cenas ansiosa. Entrou Romeu, 
elegante e belo, e toda ela comoveu-se; viu depois entrar a divina Julieta, 
mas as cenas eram diferentes, os dous no se falavam logo; ouviu-os, 
porm, falar no baile de mscaras, adivinhou o que sabia, bebeu de 
longe as palavras eternamente belas, que iam cair dos lbios de ambos. 
Foi o segundo ato que as trouxe; foi aquela cena imortal da janela que 
comoveu at s entranhas a pessoa de Ceclia. Ela ouvia as de Julieta, 
como se ela prpria as dissesse; ouvia as de Romeu, como se Romeu 
falasse a ela prpria. Era Romeu que a amava. Ela era Ceclia ou Julieta, 
ou qualquer outro nome, que aqui importava menos que na pea. "Que 
importa um nome?" perguntava Julieta no drama; e Ceclia com os olhos 
em Romeu parecia perguntar-lhe a mesma cousa. "Que importa que eu 
no seja a tua Julieta? Sou a tua Ceclia; seria a tua Amlia, a tua 
Mariana; tu  que serias sempre e sers o meu Romeu." 
A comoo foi grande. No fim do ato, a me notou-lhe que ela estivera 
muito agitada durante algumas cenas. 
 Mas os artistas so bons! explicava ela. 
 Isso  verdade, acudiu o pai, so bons a valer. Eu, que no entendo 

nada, parece que estou entendendo tudo... 
Toda a pea foi para Ceclia um sonho. Ela viveu, amou, morreu com os 
namorados de Verona. E a figura de Romeu vinha com ela, viva e 
suspirando as mesmas palavras deliciosas. A prima,  sada, cuidava s 
da sada. Olhava para os moos. Ceclia no olhava para ningum, 
deixara os olhos no teatro, os olhos e o corao... 
No carro, em casa, ao despir-se para dormir, era Romeu que estava com 
ela; era Romeu que deixou a eternidade para vir encher-lhe os sonhos. 
Com efeito, ela sonhou as mais lindas cenas do mundo, uma paisagem, 
uma baa, uma missa, um pedao daqui, outro dali, tudo com Romeu, 
nenhuma vez com Juvncio. 
Nenhuma vez pobre Juvncio! Nenhuma vez. A manh veio com as suas 
cores vivas; o prestgio da noite passara um pouco, mas a comoo 
ficara ainda, a comoo da palavra divina. Nem se lembrou de mandar 
saber de Juvncio; a me  que mandou l, como boa me, porque este 
Juvncio tinha certo nmero de aplices, que... Mandou saber; o rapaz 
estava bom; l iria logo. 
E veio, veio  tarde, sem as palavras de Romeu, sem as idias, ao 
menos de toda a gente, vulgar, casmurro, quase sem maneiras; veio, e 
Ceclia, que almoara e jantara com Romeu, lera a pea ainda uma vez 
durante o dia, para saborear a msica da vspera. Ceclia apertou/lhe a 
mo comovida, to-somente porque o amava. Isto quer dizer que todo 
amado vale um Romeu. Casaram-se meses depois; tm agora dous 
filhos, parece que muito bonitos e inteligentes. Saem a ela. 

Ncleo Pesquisas em Informtica. Literatura e Lingstica 


